sábado, 8 de janeiro de 2011

PERSÉIADES

Que já era alta noite quando o brilho preguiçoso da lua deu lugar a cores primárias, mais ensolaradas que o próprio sol. Que, soturnas, elas me doíam à medida que expeliam beleza enquanto eu habitava a sucata de ossos e carne velha. Que se comiserava pela fome, pelo desânimo e - mais ainda - pela total impossibilidade de fuga. Que eu almejava desde que fora parido - fugir, fugir, fugir para as terras mais distantes, aquelas que nunca foram percorridas. Que eu sou um homem - cheio de barba, suor e calos - que já passou do tempo de ficar procurando sujeira no céu.


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Se acaso você

As notas musicais se intensificam, deixando em altíssima tensão os pêlos e a tez úmida. A mocinha está diante de um corredor escuro e, ingênua e burra, burra, burra, vai de encontro à própria morte. Ainda que o assassino não esteja ali, ele virá pelas costas, pela esquerda e a surpreenderá inevitavelmente. Sai daí, porra e, na fronte, a primeira gota de suor vai caindo, lenta como o acorde grave que prenuncia o choque emocional. Ironicamente, toda a preparação para o momento de conflito é nada. Um grito agudo rasga a sala ao meio e fim: você é o eliminado do Big Brother Brasil dessa noite, a faculdade acabou, seus pais partiram, seu corpo nunca mais será o mesmo, amores não duram pra sempre, todo carnaval tem seu fim, ponto.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Absorto


Sentiu a mesma pontada que usualmente indicava o prelúdio de um equívoco. A hora de retroceder, porém, havia passado há exatos dois meses, cinco dias, três semanas, oito segundos, sete anos e três-quartos de hora. Enquanto seu coração ardia em selvageria bruta, o homem de turbante seguia o protocolo.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O ronron do gatinho

Minha filhota, Brigitte, em foto da amiga Aline Caetano
O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.
 
Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.
 
É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso faz ronron
para mostrar gratidão.
 
No passado se dizia
que esse ronron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.
 
Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ronron em seu peito
não é doença - é carinho.

Ferreira Gullar