domingo, 17 de abril de 2011

Em frascos

Atirei-lhe à calçada
Pronto a ser recolhido.
Encontrei ao pé da escada
No frio, tremendo encolhido.

quinta-feira, 24 de março de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

A face negra do homem no balé de Aronofsky

Attact it! Attack it! Por que, mesmo repleto de lugares-comuns, Cisne Negro é um dos filmes mais importantes da nova safra


Em Cisne Negro, Natalie Portman (foto) encena bailarina obrigada a encarar seu lado obscuro.


Um dos nomes mais emblemáticos das artes cênicas, Constantin Stanislavski propôs que interpretar um personagem exige recobrar experiências pessoais e memórias afetivas, empregando-as a favor do ato dramático. Os percursos do artista russo ecoam em Cisne Negro (2010), filme que certamente já figura no rol dos mais profícuos dos últimos tempos.

A questão que enseja a trama é: o que fazer quando o artista parece não ter um repertório de sentimentos suficiente para alcançar o tom adequado à sua "nova vida"? Thomas Leroy (Vincent Cassel), o diretor artístico de uma companhia de balé, decreta: é preciso criar - ou descobrir - monstros em casa e, então, levá-los ao palco com verossimilhança e intensidade.

A bailarina Nina Sayers (Natalie Portman) é dona de uma candura sem oscilações. Disciplinada, dedica seus esforços a provar que pode ser dona de movimentos perfeitos. A princípio, sua perseverança faz dela a escolha natural para protagonizar uma montagem transgressora de O Lago dos Cisnes. Nina tem a conduta angelical perfeita para interpretar Odette, a princesa transformada em ave por um mago. As qualidades técnicas da moça, porém, não são o bastante. Ela precisa provar que pode, também, afinar-se a Odille, o duplo mal, o cisne negro que rouba o lugar da encantada e a leva ao suicídio. Para encontrá-la, Nina precisa perder suas referências.

O filme de Darren Aronofsky explora signos já conhecidos do público. Aliás, chega a exaurí-los. É como se, inseguro demais para oferecer sua obra ao espectador, o cineasta apresenta, reforça e pôe à prova as nuances da protagonista. O roteiro, que se propõe a ares psicanalíticos, adota direcionamentos clichês e fáceis. A obstinação de Nina, os excessos de sua mãe, combinados com os intermináveis discursos de Thomas sobre a importância de uma postura ousada e longe do politicamente correto, acabam anunciando cedo demais o desfecho dessa história. Nesse ponto, Aronofsky não justifica a fama de cult e faz uma obra particularmente clássica.

Apesar dos lugares-comuns, Cisne Negro não é um filme qualquer. Pelo contrário, é um dos mais importantes da nova safra. Ao se estruturar na psicanálise, ainda que com algum primitivismo, a obra dá ao espectador leigo a chance de começar a compreender muito. Aqui, a alta comunicabilidade é, sim, uma vantagem. Muito embora a qualidade de um filme não possa ser medida por seu didatismo, esse é um ponto a favor do filme. Aronofsky pode ser chamado de pretensioso, mas parece dar as costas para o pedantismo da crítica especializada, orgulhosa em parecer blasé e ensimesmada. O resultado disso é um filme deslumbrante, mas feito para o público - com uma intensidade e inventividade visual a que poucos se arriscam no mainstream.

A experiência de ver Cisne Negro melhora (e muito!) quando Nina finalmente passa a enxergar seu duplo negro no espelho. Naquele momento, nós também a alcançamos, criando uma relação íntima com a personagem. Emerge o melhor do cinema clássico: o auto-ocultamento. Ali, desaparece a fronteira de uma lente. É como se a posição passiva do espectador se reconfigurasse por alguns momentos. Vemos, desejamos e reagimos como a bailarina. Ao confundir os limites entre real e imaginário, o suspense nos arranca o poder de julgar.

Diante da tela, embora não confessemos, também liberamos nosso cisne negro. Também matamos aqueles que se interpõem. Também descobrimos o poder que só o mal pode proporcionar. A ovação entusiástica é toda nossa. Jaz apenas a impossibilidade de equilibrar essas duas forças antagônicas, yin-e-yang, branco-e-negro, instinto-e-censura. Aronofsky é rigoroso. Impõe-se, imperativo e sem medo do ridículo, defendendo a todo custo uma séria jornada de auto-conhecimento. O que nem ele ou Freud sabem é onde iremos parar, nem se é possível cortar as asas de uma ave que provou o gosto da liberdade.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Pequenas esperanças

A pequena se foi. Não fez as malas, nem avisou que iria. A um descuido, a bolinha de pêlos e unhas afiadas ganhou as ruas da cidade. Rumou ao desconhecido, como se dissesse "já estou crescida e fui viver". No dia seguinte, foi a vez de seu irmãozinho. Idênticos em seu corpanzil fofo, exceto por uma mancha branca quase imperceptível na patinha de um, eram diametralmente opostos em graciosidade. Ela, amiga dos colos da família, exigia afagos intermináveis. Ele, único macho da prole felina, fazia as vezes de dominante. Embora não fosse dado a passar de mão em mão, tinha seus momentos de doçura e, quando entortava a cabecinha e miava profundamente olhando nos olhos, fazia qualquer um acreditar que dois universos inteiros caberiam em suas bolinhas de mel brilhante. Partiram com poucas horas de diferença. Como era da natureza do menino, não hesitou diante do automóvel, que, impassivo, esvaiou a curta vidinha em uma manobra qualquer.

Partiram sem nos dar chance de consertar o destino. Deixaram a casa enorme, quase sem móveis. Restaram as paredes escuras e a sensação de eco, mesmo no silêncio de uma família com mil nós na garganta. O homenzarrão de 50 anos, remanescente daquele paternalismo rural dado à apatia, escondeu-se em um canto para chorar em privado. As lágrimas da mãe, líquidas e sonoras, amplificaram-se dali até o extremo do mundo. O filho, sujeito pouco espiritualizado, rogou para que Deus levasse aquela alma exigente para o céu de gatinhos, onde, como de praxe, o pequeno poderia emitir seus miados olhando nos olhos de Pai, Filho e Espírito Santo sem ser convidado.