A terra da minha terra, quando vista acima da Terra, aparece como um quebra-cabeça. É um tapete de Picasso, em que o vermelho disputa com o amarelo e ambos disputam com o verde soberano da soja e da cana. Em suas artimanhas fronteiriças, a terra vai virando pó, o mesmo que os homens viram quando descem terra abaixo. Não se pode vê-los de tão alto, o que talvez seja uma justificativa plausível para que Alguém os tenha esquecido de vez. Por cima da Terra, nenhum amor se vê. Nenhum coração se planta na terra agrícola estendida sobre o cerrado.
domingo, 3 de março de 2013
sábado, 12 de janeiro de 2013
Mimese-pipoca
Era um garoto quando escrevi meu primeiro roteiro. Falava sobre um amor sádico, cheio de fúria e violência. O clímax acontecia quando uma jovem bailarina sofria um aborto espontâneo no palco e a plateia imaginava se tratar de parte do espetáculo. Ficou uma merda, como não poderia deixar de ser. Não se escreve sobre o que nunca se viveu (não me refiro à gravidez). Depois, tentei uma comédia de humor negro sobre um casal que cria as cinzas do filho como se aquilo ainda fosse uma pessoa de verdade. Entenda: sou filho único. Achei autobiográfico demais e parei na metade do texto, já tendo finalizado a última cena, que se passava na sala de jantar. Mas aquela nunca foi minha história, claro. Nunca comemos juntos à mesa. Por fim, veio um experimento livre com a câmera. Atrelado às imagens, um off insinuava um homem agonizando à beira de uma estrada e admitindo a fixação pela mãe. Logo eu, que admiro a psicanálise, mas cago para as interpretações que fazem do Complexo de Édipo. Meses depois, senti-me enojado daquilo e só não destruí as cópias por respeito aos colegas que participaram das filmagens. Da minha parte, decidi guardar cada narrativa, como quem guarda os sonhos - se fossem esquecidas ao amanhecer é porque não tinham tanto a dizer. Continuei escrevendo coisas, mas virei um contemporâneo. A princípio, as histórias só existem quando realmente não cabem mais em mim. De resto, são poesias. Um dia qualquer, talvez elas comecem a me possuir. Espero estar morto quando isso acontecer.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Lume
Procuro uma definição exata para a palavra vaga-lume
Uma explicação que transcenda as enciclopédias
Desminta os dicionários
Que, na epistemologia dos poetas,
Seja universal na língua da boca e do peito.
Um verbete que me traga um vaga-lume em plena matéria
Que, ao emitir vida,
Seja tão implacável em sua missão
Que, em sol a pino,
Em sua capacidade de ser clarice,
Clarifique-me.
Uma explicação que transcenda as enciclopédias
Desminta os dicionários
Que, na epistemologia dos poetas,
Seja universal na língua da boca e do peito.
Um verbete que me traga um vaga-lume em plena matéria
Que, ao emitir vida,
Seja tão implacável em sua missão
Que, em sol a pino,
Em sua capacidade de ser clarice,
Clarifique-me.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Pequenas frestas de gaiola
Ainda menino, o amor se embrenhou em suas artérias. Desde então, qualquer que fosse o objeto de seu sentimento, aquilo sempre atava por completo. Nenhuma mecha de cabelo se movia, nenhum fragmento de pupila se dilatava, nenhum reflexo de dor se manifestava. Nem mesmo os líquidos de seu corpo digeriam nada sem que o amor lhe autorizasse. Era a expressão da mais profunda dedicação ao seu senhor absoluto.
Logo, o que era fundamental virou contratempo. Era preciso se lavar, comer, fazer com que os temas do mundo tivessem implicação em si, mas só tinha espaço para romancear.
Não tardou e logo a grande liberdade para ato amoroso cedeu lugar à monotonia. Ainda assim, insistia em marcar dia e hora para a Vida acontecer, embora ela deixasse de ser a cada truque. Tornava-se um pequeno emaranhado de não a fins. Recusando-se a admiti-lo, passou a acumular coisas mortas em seus aposentos. Em sua prepotência de eternidade, os relatos de dias passados carregavam cheiros apodrecidos.
Aquele que tinha nome de pássaro e destino de planar sobre matas virgens conseguia alcançar precariamente o teto de uma banca-de-revista, em sua sina por coleções de relatos perfeitos e imediatos.
Há muito, não se deixa ver à luz do dia. Há quem diga que ainda está em meio a pilhas e pilhas de declarações, planos e fotografias. Que seu sorriso iluminado deixou em seu rosto uma expressão permanente loucura, um remédio à apatia. E que não se dá conta de que habita sozinho esse pequeno universo chamado Fé.
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