segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Neste tema em que me prolongo

Meu pequeno senhor,

Venho por meio dessas singelas palavras,
que, embora pareçam, não têm qualquer tom jocoso,
intenção ambígua,
ou excesso de zelo,
agradecê-lo por tirar-me o sono.

Desde que o escuro começou a reverberar sua presença,
ando a me pegar num êxtase tão complexo
que não raro meu corpo expande
os limites do leito desarrumado.

Hesito em expelí-lo em meus lençois,
certo de que não haverá frestas adequadas para arrancá-lo de vez.
Será necessário parí-lo?
E onde te cultivaram?
Quando plantaram você em mim?
Ou terá sido geração espontânea? 
À medida em que cresço
- para suportar a agonia dos dias perdidos -,
extende-se também o desespero pela sensação de olhá-lo por cima.

Entretanto, muito entretanto,
Não tenho queda para King Kong, senhor
Apesar dos métodos primatas
E da natureza de cobertor em que me transfiguro a cada abraço.

Se é necessário ser diminuto para cabermos em nós,
diga a quem interessar possa
- respeitosamente, senhor -
que está resolvido.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Certa manhã, Franz Kafka acordou de sonhos intranquilos e decidiu que era hora de limpar as mãos sujas de graxa, sêmen e poesia. Sentiu o peso de cada dedo, buscando a confirmação visual de que precisava. Concluiu que, sim, aquelas eram mãos legitimamente humanas. Ainda buscando evidências de se tratar de algo próximo a um sapiens de fato, levou os recém-descobertos dedos ao rosto. Fechou os olhos e sentiu que estava tudo bem por trás das pálpebras trêmulas.

Certificou-se de ter um esqueleto calcificado, firme e interno. Penteou os cabelos com algum prazer e sentiu o gosto levemente ácido do creme dental. Deu bom-dia aos pais e à irmã, que havia se transformado em uma linda mulher.

Rumo à estação, ao pisar acidentalmente em algo crocante, entendeu que tinha superado o medo de barata.
Mas o amor, esse sim, continuava a lhe dar arrepios.




Thalma de Freitas - Não foi em vão (a capella)

sábado, 8 de janeiro de 2011

PERSÉIADES

Que já era alta noite quando o brilho preguiçoso da lua deu lugar a cores primárias, mais ensolaradas que o próprio sol. Que, soturnas, elas me doíam à medida que expeliam beleza enquanto eu habitava a sucata de ossos e carne velha. Que se comiserava pela fome, pelo desânimo e - mais ainda - pela total impossibilidade de fuga. Que eu almejava desde que fora parido - fugir, fugir, fugir para as terras mais distantes, aquelas que nunca foram percorridas. Que eu sou um homem - cheio de barba, suor e calos - que já passou do tempo de ficar procurando sujeira no céu.


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Se acaso você

As notas musicais se intensificam, deixando em altíssima tensão os pêlos e a tez úmida. A mocinha está diante de um corredor escuro e, ingênua e burra, burra, burra, vai de encontro à própria morte. Ainda que o assassino não esteja ali, ele virá pelas costas, pela esquerda e a surpreenderá inevitavelmente. Sai daí, porra e, na fronte, a primeira gota de suor vai caindo, lenta como o acorde grave que prenuncia o choque emocional. Ironicamente, toda a preparação para o momento de conflito é nada. Um grito agudo rasga a sala ao meio e fim: você é o eliminado do Big Brother Brasil dessa noite, a faculdade acabou, seus pais partiram, seu corpo nunca mais será o mesmo, amores não duram pra sempre, todo carnaval tem seu fim, ponto.