sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Quando éramos música

Enquanto me metia a escrever canções, você se articulava em longas prosas. Um escolhia clássicos da literatura para torturar a já pouca esperança no mundo, outro devorava três best sellers por semana e acreditava nas oportunidades da sociedade democrática. Escrevíamos beijos demorados e mandávamos pelos ares, confundindo o tato, paladar e visão, porque tudo nos aflorava o prazer. Até cedermos um ao outro, éramos o vermelho e o negro puros, dois olhares singelos e desumanos. Às vezes, trovejávamos ou molhávamos a terra devagar, mas sempre fluidos como água do céu.

De braços abertos para a vida aos 16, um aprendia a entender e respeitar a língua estrangeiro e o carisma abobalhado do outro, que se esforçava a entender a sutileza dos carinhos - com aura falsa de desinteresse - daquele um. Não era banal, era bom. Éramos a pretensão da felicidade, por ousarmos colocar em prática o desafio de viver a dois, olhando mais para o presente do que para o futuro. Eu bem queria  estar aí com você, mas me contento em vibrar. Aqui de Marte, espero que tenha uma linda vida ao lado das pessoas que ama, e de mim - porque eu te amo e um mundo inteiro não se dissipa quando acabam as notícias.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Absurdo


Fatalmente, santifico-me. As mãos, que servem ao trabalho e à luta, transfiguram-se em digitais e palmas sutis que carimbam o corpo de outrem com leveza. Os pés recebem o dom do aconchego, encontrando semelhantes por entre o cobertor. A natureza de minhas extremidades é o outro, a quem procuro tatear como um descobridor, sem a ânsia de encontrar tesouros perdidos, mas com a missão de mapear centímetro por centímetro os desígnios da pele. Pois se há braços, que abracem. E se há no corpo casa para o acalento, então que se envolva devagar, repousando a cabeça do outro ante o próprio ombro, cujos músculos se estendem e dilatam para acolher. Em nome de Deus, evoluí para o amor. Por Darwin, encarei o absurdo da vida nascendo do pó e ao pó voltando.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Ninho

Afaste-se. Pelo menos, um pouco. Esse é o chão onde eu me deito, onde eu piso e me gasto. Uma terra que é minha por direito, como meu corpo me é de usucapião. Onde eu roço com enxadas, a ponta dos dedos e a maçã do rosto. Meus são esses caminhos, com atalhos secretos que levam a recantos escuros. Não adentre. Não cruze a linha, nem ouse invadir os pés das árvores sob as quais me refugio. Mas, se ainda assim decidir fazê-lo, tire os sapatos, sem fazer barulho, nem se deixe denunciar pelo cheiro de rompantes de vida. Sem interromper meu sonho, repouse ao lado e observe enquanto respiro, lento e vasto. Vá com cautela, mas vá. Não exijo canções-de-ninar ou torso macio. Apenas adormeça, com seus pulmões pequenos e frágeis. Em instantes, nasce desse esconderijo o universo silencioso e indivisível onde reina minha luminosa paz.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011


"Se eu fosse um bicho, sem noção de que vou morrer e que posso magoar os outros o tempo todo, sem culpa de espécie alguma e ocupado apenas em comer, excretar e me reproduzir, então a vida poderia ser tolerável. Mas não da maneira como ela é para os homens. Não é justo. Se antes de eu nascer, me consultassem sobre se eu quero existir neste mundo, eu diria não - absolutamente não". (Lars von Trier, à VEJA ed. 2233, p. 20)