terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Império

Ousou travar, sem armas, uma batalha perdida. Inofensivo, entrou em campo como se não quisesse conquistar nada além da terra que estava sob seus pés. Não deu ordens, mas fitou o horizonte com olhos tão profundos que tudo o que se impunha de pé curvou-se em sua honra. Sem alarde, instalou sua bandeira e imperou sobre a Macedônia em mim.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Quando éramos música

Enquanto me metia a escrever canções, você se articulava em longas prosas. Um escolhia clássicos da literatura para torturar a já pouca esperança no mundo, outro devorava três best sellers por semana e acreditava nas oportunidades da sociedade democrática. Escrevíamos beijos demorados e mandávamos pelos ares, confundindo o tato, paladar e visão, porque tudo nos aflorava o prazer. Até cedermos um ao outro, éramos o vermelho e o negro puros, dois olhares singelos e desumanos. Às vezes, trovejávamos ou molhávamos a terra devagar, mas sempre fluidos como água do céu.

De braços abertos para a vida aos 16, um aprendia a entender e respeitar a língua estrangeiro e o carisma abobalhado do outro, que se esforçava a entender a sutileza dos carinhos - com aura falsa de desinteresse - daquele um. Não era banal, era bom. Éramos a pretensão da felicidade, por ousarmos colocar em prática o desafio de viver a dois, olhando mais para o presente do que para o futuro. Eu bem queria  estar aí com você, mas me contento em vibrar. Aqui de Marte, espero que tenha uma linda vida ao lado das pessoas que ama, e de mim - porque eu te amo e um mundo inteiro não se dissipa quando acabam as notícias.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Absurdo


Fatalmente, santifico-me. As mãos, que servem ao trabalho e à luta, transfiguram-se em digitais e palmas sutis que carimbam o corpo de outrem com leveza. Os pés recebem o dom do aconchego, encontrando semelhantes por entre o cobertor. A natureza de minhas extremidades é o outro, a quem procuro tatear como um descobridor, sem a ânsia de encontrar tesouros perdidos, mas com a missão de mapear centímetro por centímetro os desígnios da pele. Pois se há braços, que abracem. E se há no corpo casa para o acalento, então que se envolva devagar, repousando a cabeça do outro ante o próprio ombro, cujos músculos se estendem e dilatam para acolher. Em nome de Deus, evoluí para o amor. Por Darwin, encarei o absurdo da vida nascendo do pó e ao pó voltando.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Ninho

Afaste-se. Pelo menos, um pouco. Esse é o chão onde eu me deito, onde eu piso e me gasto. Uma terra que é minha por direito, como meu corpo me é de usucapião. Onde eu roço com enxadas, a ponta dos dedos e a maçã do rosto. Meus são esses caminhos, com atalhos secretos que levam a recantos escuros. Não adentre. Não cruze a linha, nem ouse invadir os pés das árvores sob as quais me refugio. Mas, se ainda assim decidir fazê-lo, tire os sapatos, sem fazer barulho, nem se deixe denunciar pelo cheiro de rompantes de vida. Sem interromper meu sonho, repouse ao lado e observe enquanto respiro, lento e vasto. Vá com cautela, mas vá. Não exijo canções-de-ninar ou torso macio. Apenas adormeça, com seus pulmões pequenos e frágeis. Em instantes, nasce desse esconderijo o universo silencioso e indivisível onde reina minha luminosa paz.